Em 1987, o tema “AIDS”, foi abordado pela primeira vez na teledramaturgia brasileira.
A novela “Corpo Santo” (de José Louzeiro, Cláudio MacDowell e Wilson Aguiar Filho) apresentava o polêmico tema com o clichê típico dos anos oitenta: “A AIDS é doença que afetava somente garotas de programa e homossexuais masculinos”.
Na novela da Rede Manchete, a prostituta Marina, interpretada por Eliane Narduchi, contraia o vírus HIV e torna-se portadora da síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA), em uma época em que a doença era sinônimo de “condenação à morte”.
Nos anos seguintes, a temática voltaria às telinhas de forma mais genérica.
Com a repercussão causada por celebridades infectadas (Cazuza e Renato Russo, por exemplo), a Rede Globo resolveu se posicionar e transmitiu a minissérie “O Portador”, onde o empresário Léo (Jayme Periard) contrai o vírus da Aids através de uma transfusão de sangue.
Mas um longo caminho foi percorrido até que “Malhação” deu um alerta importante para os jovens. Na sétima temporada da novela (2000 – escrita por Emanuel Jacobina, Andréa Maltarolli, Patrícia Moretzsohn e Ricardo Hofstetter), a jovem e bela Érica (Samara Felippo) contraiu a doença em uma relação sexual heterossexual. Mesmo contaminada, a adolescente levou a vida adiante e se casou com Touro (Roger Gobeth).
Roger Gobeth voltaria a trabalhar com o assunto na novela “Chamas da Vida”, (Record, escrita por Cristianne Fridman), onde viveu Guilherme, um rapaz 100% heterossexual, que torna-se soropositivo após dormir com diversas garotas desconhecidas, sem utilizar preservativos.
A própria Rede Globo arrumou maneiras diferentes de abordar o tema. Em “Sete Pecados” (de Walcyr Carrasco), a adolescente Gina (Carla Diaz), já nasceu contaminada com o vírus e esconde isto de seus colegas de escola. Já em “Queridos Amigos” (de Maria Adelaide Amaral), tivemos o primeiro homem contaminado em uma relação homossexual, o milionário Benny (Guilherme Webber).
Com tantos serviços bem prestados pela televisão brasileira, com alertas sobre a doença – especialmente por parte da Rede Globo -, é no mínimo estranho a “ignorância” que parece ter se instalado na TV nacional atualmente.
No Reality Show “Big Brother Brasil”, da Rede Globo, o participante Marcelo Dourado afirmou que um homem heterossexual – que nunca teve relações homossexuais – não tem como contrair a doença. A justificativa seria que esta informação equivocada lhe foi passada por uma estudante de medicina.
Será que Dourado não viu televisão estes anos todos? Será que um homem de quase quarenta anos nunca leu nenhuma matéria sobre o tema? Será que ele nunca viu uma das muitas campanhas do “Fique Sabendo” do Ministério da Saúde?
Talvez! Afinal, não podemos condenar alguém tão simplesmente e rapidamente o rapaz.
Mas o que se pode esperar de uma instituição como a Rede Globo diante desta situação?
Afinal trata-se de uma emissora que sempre alegou ter um compromisso social muito forte, fazer campanhas nobres em novelas (como doação de medula óssea) e ainda realizar anualmente o “Criança Esperança”.
Quando a cena foi exibida, o apresentador Pedro Bial não corrigiu as informações dadas por Dourado, apenas se limitou a dizer que o programa “não se responsabiliza pelas declarações de seus participantes” e recomendou um site para o telespectador pegar informações corretas.
Mas e quem não tem acesso fácil a internet? E quem tem preguiça de entrar no portal do Ministério da Saúde?
Mais ‘chocante’ que tudo isto, foram as notícias de que a direção do programa teria corrigido, na ocasião, as informações meio que “a contra gosto”.
Agora, o Ministério Público solicitou que à Justiça obrigue a Rede Globo veicular esclarecimentos sobre o vírus da AIDS antes do final do “BBB 10”, na próxima terça-feira (30). A solicitação foi encaminhada na última terça (23) à Justiça Federal de São Paulo. O órgão ainda exige que os esclarecimentos sobre o vírus HIV durem o dobro do tempo da afirmação de Dourado, já que o Ministério Público acredita que a emissora prestou um desserviço para a prevenção da doença.
Mas, se toda esta polêmica estivesse envolvendo somente o “BBB” poderia ser justificável, afinal trata-se de um ‘reality show’, onde os participantes mostram todos os seus lados: a ignorância, o racismo, a homofobia e tantos outros preconceitos, e falta de conhecimentos, típicos de boa parte dos brasileiros.
Revoltante está sendo a maneira como as relações sexuais estão sendo banalizadas na novela “Viver a Vida”.
Manoel Carlos é um grande autor, um cronista da vida cotidiana. Maneco entende muito bem a realidade dos soropositivos (teve um filho que faleceu em decorrência da doença) e fez um lindo trabalho sobre o preconceito que pacientes com a doença sofrem em hospitais católicos na novela “Páginas da Vida”.
Mas em “Viver a Vida” parece que Maneco esqueceu de ‘pregar’ uma mensagem social em cima da doença. Dora (Giovanna Antonelli) transou com dois homens praticamente “desconhecidos” para ela e agora está grávida.
Para piorar tudo, Dora não usou camisinha com nenhum deles e não sabe quem é o pai da criança. Como uma mulher que tem mais de 30 anos e é mãe de uma garotinha de oito anos, pode ser tão irresponsável?
Agora vem a parte mais complicada. Segundo a revista Minha Novela, desta semana, o ‘pseudo-vilão’ Jorge (Mateus Solano) vai engravidar a garota de programa Myrna (Aline Fanju).
Será que um homem tão estudado como ele (que é arquiteto), nunca pensou que devemos usar preservativo em uma relação sexual? Será que o clichê da “Garota de Programa como grupo de risco” terá que voltar a ser discutido? Será que a novela “Corpo Santo” precisa ser reprisada?
A falta de responsabilidade em nossas novelas é assustadora e perturbadora, ainda mais com a quantidade de gente que anuncia na internet ser favorável à pratica do “Barebacking” (sexo sem camisinha / ’sem borracha’).
Será que Jorge pensa como Marcelo Dourado, ou seja, que homens heteros não são contaminados com o vírus da AIDS?
Não sei afirmar. O que sei é que todos os participantes do ‘reality show’ deveriam ter uma aula sobre o tema.
No quarto branco, Serginho afirmou que faz sexo oral sem camisinha (o que também pode gerar a contaminação). Na sequência, Angélica argumentou que – por ser lésbica – não contraí a doença, outro engano.
Seja em um ‘reality show’ ou em uma ‘novela’, as redes de TV precisam pensar urgentemente encontrar uma forma de passar mensagens mais esclarecedoras sobre o delicado tema, afinal o número de mulheres e idosos heterossexuais contaminados com o HIV aumenta assustadoramente a cada dia.
Fica a dica: Proteja sua vida e de quem você gosta (ou sente tesão). Faça o que quiser da sua vida fora da televisão, mas faça com camisinha.