
Neste final de semana estava lendo sobre “O Cortiço”, obra de Aluisio de Azevedo, e lembrei-me que, perto de minha casa, quando eu era pequena, havia um cortiço que conheci bem de perto. Convivendo com algumas pessoas que ali moravam.
Era no bairro de Freguesia do Ó (na capital de São Paulo), que eu morava. Era uma travessa da rua principal, e esse cortiço ficava nessa rua, que hoje é uma grande avenida, umas das principais da região.
Era um casarão muito grande e bonito. Tinha um enorme portão, por isto, do lado de fora não dava para ver o que tinha lá dentro. Mas ao entrar, podia-se ver inúmeras casinhas, sem condições nenhuma de ser habitada. Não tinha nem banheiro, era uma ”casinha” no fundo do quintal, utilizada por toda a comunidade. Ali era o “Cortiço de Dona Mariana” (nome fictício). Lá se fixavam, na maioria, os retirantes Nordestinos vindo da Bahia e Pernambuco, que eram chamados de “Paus-de-Araras” ou “os Baianos”. Gente boa, com vontade de trabalhar e viver em São Paulo.
Algumas vezes eu visitei aquele lugar, pois ali moravam a Dona Joaquina e Seu Francisco, nossos conhecidos, e ela foi a parteira de minha mãe no nascimento de meus dois irmãos caçulas.
A dona do casarão, a Dona Mariana, era uma senhora gorda, branca, com cabelos pretos, bem penteados. Ela estava sempre sentada na sacada em uma cadeira de balanço. Usava um lindo chalé português, que cobriam os seus ombros e costas, pois era muito frio (naquele tempo era São Paulo, a terra da garoa) e ficava olhando os que passavam pela rua. Suas mãos ostentavam anéis com grandes pedras coloridas, usava também colares e corrente no pescoço.
Parecia uma fotografia de mulheres européias, tirada de um livro de história geral do colégio.
Era ela que recebia os alugueis e não perdoava nada. Aliás, todos diziam que o Cortiço era dela e que o marido só se casou pelo dinheiro que ela tinha (que fofoca, né?).
O seu marido, dono do cortiço chamava-se Senhor Jacob. Era um homem bonito. Magro, alto, cabelos loiros e lisos. Os seus olhos é que eu não sei se eram azuis ou verdes. Algumas pessoas falavam que ele era alemão, outras austríaco, russo… E não sei mais o quê. Mas a maioria dizia mesmo é que ele era “hungarês” (será?).
Era um homem que se vestia muito bem, sem mostrar sua posição social.
Ele tinha uma “charrete” muito bonita. Mas quando precisavam ir a algum lugar mais longe, no bairro da Lapa ou Centro de São Paulo, por exemplo, ele chamava o “chofer de praça” (nem sei se é assim que se escrevia) para poder levá-los de carro.
Ele tinha também uma “leiteria”, isto é, um sítio com muitas vacas e cabras. E com isto fornecia leite para as vendas e armazéns do bairro.
Todos gostavam dele, ao contrário do que pensavam da sua esposa, Dona Mariana. As pessoas só tinham medo dela.
Eu a conhecia e – pasmem – eu gostava dela.
Meu pai trabalhava em uma padaria e ele, por encomenda, trazia pães para o casal. E lá ia EU fazer a entrega todos os dias.
Ela me agradava bastante, dava frutas, doces, sucos e até beijinhos. Na sua casa tinha uma geladeira enorme e que diziam que tinha vindo da América do Norte.
Eles tinham um filho que eu não conheci e que estava estudando na Europa
Na casa tinha muitas mulheres que faziam os serviços domésticos. Elas não tinham salários (eram escravas enrustidas) e seus familiares moravam lá nos fundos, no cortiço.
Lembro-me de uma menina, um pouco mais velha que eu, que ficava ao lado dela recebendo ordens, hoje eu até sinto tristeza, pois enquanto ela me agradava a menina era “pisada”. Muito triste essa lembrança. Era “só uma menina filha de corticeiros”, como ela dizia.
Passados os anos, essa menina teve um filho, um menino lindo com grandes olhos azuis e cabelos claros. A criança então ficou sendo criada dentro da casa como se fosse o neto deles.
Dona Mariana ficou muito doente e morreu.

QUER SABER O FINAL DA HISTÓRIA?
O Senhor Jacob casou-se com a tal menina e assumiu, perante todos, a paternidade, não só do menino mas também de outra criança, uma menina, que havia nascido antes da esposa morrer.
Agora não existem mais nem Sr. Jacob, nem dona Mariana e nem o tal Cortiço. Existem sim a segunda esposa e os filhos usufruindo da herança deixada pelo extinto Cortiço na Freguesia do Ó.
Sobre a colunista: Ida Telhada é jornalista, assessora de imprensa, e tem 65 anos de idade e 35 de carreira.
Fotos: Divulgação (Peça “O Cortiço” – São Paulo, 2006 – Direção: Zé Aires)