
Na edição número nove de “Turma da Mônica Jovem” conhecemos uma divertida história que situa os personagens durante a montagem de uma peça teatral no Colégio do Limoeiro. O conflito começa com a chegada de um garoto desconhecido agita a galera e provoca brigas, intrigas e muito ciúme, além de ameaçar abalar uma antiga amizade.
Revista em estilo mangá tem seu roteiro assinado por Mauricio de Sousa e Petra Leão (foto), abaixo você confere parte da entrevista que a jovem roteirista Petra deu para a revista Neo Tokyo 37 (editora Escala). O bate-papo foi feito por David Denis Lobão e Carolina Michelli.
Neo Tokyo: Como começou sua carreira como roteirista?
Petra Leão: Começou em 2000, na editora Trama. Comecei fazendo histórias de quatro páginas do Capitão Ninja, na extinta revista Dragão Games. Fiz muitas histórias de quatro páginas pra diversas revistas da editora, até que fui convidada para escrever a primeira edição especial de “Holy Avenger” com minha parceira da época, Fran Briggs. Foi meu primeiro trabalho editorial de peso. Depois disso, escrevi muitas outras edições especiais, minisséries e matérias, como “Dado Selvagem”, “Mercenário$”, “Victory”, além da própria “Holy Avenger”.
Neo Tokyo: Que trabalhos destaca em sua carreira?
Petra Leão: Alguns trabalhos que me marcaram muito foram o especial número 2 de “Holy Avenger”, por eu ter podido colocar e explorar na trama um personagem meu do qual gosto muito, o elfo rabugento Klaus – que depois virou figura carimbada no universo de Tormenta, onde se passa a história. Também destaco a “Victory” 2 (continuação de “Victory”), a primeira minissérie que escrevi sozinha. As duas séries de “Victory” foram publicadas nos EUA pela Image e com isso fui a primeira roteirista brasileira – e mulher – a publicar uma HQ nos Estados Unidos, o que me deixou muito feliz.
Neo Tokyo: E ainda sobre “Holy Avenger”, como foi fazer a dublagem do CD?
Petra Leão: Foi bastante divertido! A dublagem foi feita no Rio, então a “equipe de criação” viajou pra lá pra fazer uma concentração. Marcelo Cassaro, o criador, nunca tinha trabalhando com audiodrama antes, então as cenas tiveram que sofrer várias modificações de última hora. Na véspera do primeiro dia de gravação, a equipe de criação (Marcelo Cassaro, eu, Fran Briggs e Guilherme Briggs) ainda estávamos retocando e criando novos diálogos. Foi uma aventura e uma nova experiência pra mim, que apesar de já ter feito muitos cosplays, nunca tinha trabalhado “profissionalmente” com atuação, e ainda mais ali do lado de dubladores tarimbados como o Guilherme Briggs, Mauro Ramos e Miriam Fischer. Fiquei nervosa, fui mais tiete do que fã, pedi autógrafo pra todos, mas tentei fazer minha parte o melhor possível, dirigida pelo Guilherme Briggs (risos).
Neo Tokyo: A personagem Petra, foi criada por você ou inspirada em você? Como foi fazer a dublagem da sua própria personagem?
Petra Leão: A personagem na realidade já estava prevista para aparecer em Holy Avenger, antes do Cassaro me conhecer. Ele já sabia quais suas características principais – tímida, carinhosa, sem olfato e seria apaixonadinha pelo personagem Tork – e tinha desenhado como ela seria – e ela não parecia nem um pouco comigo, era alta e loira. Depois que eu e o Cassaro começamos a conviver, ele viu como eu gostava do Tork também – na real, é meu personagem preferido em Holy Avenger – e resolveu dar pra personagem o mesmo nome que eu; e a desenhista, Erica Awano, resolveu desenhá-la com um corte de cabelo parecido com o que eu usava. Apesar de ser uma personagem muito fofa, não sei se sou muito parecida com ela, mas acredito que o Cassaro tenha feito ela de acordo com a visão que ele tinha de mim na época.
Neo Tokyo: Quais as maiores dificuldades que um roteirista enfrenta atualmente no Brasil?
Petra Leão: Obviamente, a falta de mercado para quadrinhos feitos no Brasil. Senti que houve um momento de efervescência de 1998 a 2002, em que surgiram muitos projetos de quadrinhos feitos aqui como “Megaman”, “Comborangers”, “Holy Avenger” e as HQs do Studio Seasons. Foi também a época em que fanzines de nível profissional surgiram, como o Ethora e o Break the Hand, e artistas incríveis foram revelados através de suas páginas, como Erica Awano, Denise Akemi, Diogo Saito, Erica Horita… No entanto, foi como uma bolha que cresceu e estourou. Depois disso, o mercado tornou a se voltar para produções estrangeiras, os artistas brasileiros também passaram a trabalhar para estúdios de fora e pouco se vê de produção nacional nas bancas além do já clássico “Turma da Mônica”. Isso é porque é muito caro e inseguro investir numa HQ feita no Brasil. O público tem pé atrás com publicações brasileiras, acham que não vão durar e por isso não compram os primeiros números, querendo ter certeza da série se ‘firmar’ para investir nela. Só que com isso, poucas são as editoras que tem como pagar o custo de produção desses primeiros números suportando o prejuízo inicial em prol de um lucro futuro. Com isso se cria um círculo vicioso e são poucas as editoras que “topam” um projeto de HQ feito no Brasil. Os roteiristas tem que ter noção que quem quiser se firmar nesse meio, vai ter que enfrentar essa realidade.
Neo Tokyo: Que dicas você daria para um roteirista iniciante?
Petra Leão: Pelos motivos que já citei, as chances de um roteirista oferecer um projeto em uma editora e este ser aceito ‘de prima’ é muito pequeno. O melhor caminho é começar fazendo um fanzine com bom acabamento ou publicando na internet. Dessa forma, o fanzine ou site serve como portfólio, e seu compromisso, proposta e qualidade podem ser melhor avaliados. Sem contar que ter um público cativo, ainda que seja em um nicho, aumenta suas chances da editora se interessar por você. No mais, é necessário estar sempre atento às oportunidades do mercado. Muita gente quer se tornar roteirista espelhando-se em trabalhos estrangeiros e não faz idéia do que se passa no mercado brasileiro. É muito diferente a trajetória de um mangá-ká no Japão, onde se tem concursos pra revistas e um mercado estabelecido, e o mercado do Brasil. É necessário ficar atento à nossa realidade, ler sempre sites de quadrinhos e observar o que se publica em bancas para encontrar uma brecha.
Neo Tokyo: Com o que você tem trabalhado atualmente?
Petra Leão: Passei um bom tempo escrevendo para uma revista informativa, e também trabalhei em áreas paralelas relacionadas à minha formação, como professora de Artes, mas sem nunca abandonar os freelas de quadrinhos. Cheguei a fazer projetos para uma editora da Jordânia, que estava interessada em começar uma produção de quadrinhos femininos por lá. É um projeto que ainda está em andamento. Recentemente comecei a fazer parte da equipe de roteiristas que desenvolve trabalhos para o Mauricio de Sousa e também estou desenvolvendo roteiros para uma série de desenho animado que será produzida pra TV Cultura; e não, não é a “Holy Avenger” – o projeto da “Holy” já foi aprovado pela lei Rouanet, mas não conseguiu pleitear recursos financeiros ainda para ser produzida.