Uma HQ que se tornou símbolo da contracultura nasceu de uma história cercada por mistérios, apropriação artística e uma das maiores fraudes editoriais dos quadrinhos. A Editora Noir iniciou uma campanha de financiamento coletivo para publicar, pela primeira vez no Brasil, “Octobriana”, personagem que protagonizou uma das histórias mais curiosas e controversas dos quadrinhos do século XX.

Organizada pelos editores André Hernandez e Gonçalo Junior, a edição pretende reunir não apenas a HQ histórica da personagem, mas também uma investigação sobre sua verdadeira origem e sobre como uma narrativa envolvendo dissidência política, União Soviética e Guerra Fria acabou se transformando em um dos grandes mitos da cultura pop.

Contexto da guerra fria

“Octobriana” surgiu em 1971, apresentada ao público como uma super-heroína criada clandestinamente por artistas dissidentes da antiga União Soviética. Segundo a história que se espalhou internacionalmente, a personagem representaria uma espécie de símbolo de resistência ao regime comunista durante a Guerra Fria.

A narrativa ganhou força ao longo dos anos 1970 e chamou a atenção de leitores, pesquisadores e profissionais do mercado editorial. O que parecia ser a descoberta de uma personagem soviética clandestina, no entanto, escondia uma história bem diferente.

Posteriormente, veio à tona que grande parte da origem atribuída a “Octobriana” havia sido criada pelo quadrinhista tcheco Petr Sadecký. Ele teria transformado uma personagem criada originalmente por outros artistas em uma suposta heroína soviética, construindo ao redor dela uma história que não correspondia à realidade.

O episódio passou a ser considerado uma das mais notórias fraudes editoriais da história dos quadrinhos, envolvendo apropriação artística, manipulação histórica e uma estratégia de divulgação que ajudou a transformar “Octobriana” em um ícone da contracultura.

Investigação e HQ original

A edição brasileira preparada pela Noir pretende reconstruir essa trajetória. Além da HQ original, o livro contará com uma investigação sobre a verdadeira origem da personagem, documentos históricos, análises e materiais complementares que ajudam a compreender a repercussão de “Octobriana”.

Com formato de 16 x 23 centímetros e 120 páginas, a publicação foi planejada para reunir informações sobre a personagem e seu contexto histórico, interessando tanto a leitores de quadrinhos quanto a pesquisadores e interessados em cultura pop.

A campanha também prevê conteúdos adicionais de acordo com o valor arrecadado. Caso o financiamento alcance R$ 20 mil, a edição ganhará páginas coloridas extras. Se atingir R$ 30 mil, será produzido um conjunto exclusivo de oito cards colecionáveis para os apoiadores.

Com o projeto, a Editora Noir busca recuperar um episódio pouco conhecido da história dos quadrinhos e discutir como ficção, política, repressão, Guerra Fria e mercado editorial se cruzaram na construção de uma personagem que, mesmo tendo sua origem posteriormente desmentida, permaneceu como uma referência da contracultura.

A campanha de financiamento coletivo está disponível na plataforma Catarse.