GMStudios: a história da fandublagem de Cavaleiros do Zodíaco que nasceu autorizada e acabou nas lojas da Liberdade

Em 2003, em uma época em que a popularidade dos animes crescia rapidamente no Brasil, muitos fãs sonhavam em transformar a paixão pelas animações japonesas em uma oportunidade de trabalhar com dublagem. Entre eles estavam Victor Cassoni e Sérgio Moura, dois jovens que acabariam criando um dos projetos de fandublagem que marcou aquela geração: a GMStudios.

Victor estudava teatro, havia se formado no Teatro Escola Macunaíma e também frequentava outros cursos de formação artística. Ao lado de Sérgio Moura, fundou a GMStudios (Grupo Mega Sound), nome que também fazia referência à Gota Mágica, tradicional estúdio brasileiro conhecido por trabalhos de dublagem e produção audiovisual.

O principal projeto da GMStudios foi a Saga de Hades, de Os Cavaleiros do Zodíaco. O que começou como uma iniciativa supostamente autorizada para exibição em eventos de anime acabou se transformando em um problema envolvendo a comercialização não autorizada das gravações.

Uma fandublagem autorizada para eventos

A produção recebeu, inicialmente, uma suposta autorização de Luiz Angelotti, da Angelotti Licensing, empresa responsável pelo licenciamento de Cavaleiros do Zodíaco no Brasil. A ideia era que a fandublagem fosse apresentada exclusivamente em eventos voltados ao público de anime, entre eles o Anime Friends e o Animecon, realizados em 2003.

A proposta da GMStudios também buscava se diferenciar de outras fandublagens produzidas naquele período. Enquanto muitos fãs gravavam suas falas individualmente, em suas próprias casas e sem a presença de um diretor, a GMStudios procurava reproduzir uma estrutura mais próxima daquela encontrada em um estúdio profissional.

Victor convidou seu professor de teatro, Douglas Guedes, para assumir a direção da dublagem. As gravações eram realizadas no home studio de Douglas, localizado em sua residência no Largo do Arouche, em São Paulo, sempre com a direção presente durante o processo.

O elenco também reunia uma combinação de atores iniciantes, estudantes de teatro e profissionais já conhecidos do mercado de dublagem.

Na época, Victor fazia estágio na Parisi Vídeo, onde chegou a participar de trabalhos com vozes adicionais em animes, entre eles Pokémon. A partir desse contato com o mercado profissional, passou a convidar outros dubladores para integrar o projeto.

Entre os nomes que participaram estavam profissionais como Marli Bortoletto e Figueira Junior, além de atores e iniciantes na dublagem, como David Denis Lobão, Samira Fernandes, Heber de Souza e Eduardo Sonsin.

Assim, a produção reunia pessoas que, em sua maioria, tinham formação teatral, cursos de dublagem ou experiência profissional como atores e dubladores.

O elenco de A Saga de Hades

Entre os nomes lembrados do elenco da fandublagem estavam:

  • Seiya de Pégaso: Victor Cassoni
  • Shiryu de Dragão: Douglas Guedes
  • Mú de Áries: Sérgio Moura
  • Afrodite de Peixes: Heber de Souza
  • Shion de Áries: David Denis Lobão
  • Shun de Andrômeda: Odair Stefoni (Link Geminis)
  • Shun possuído por Hades: Ricardo Vasconcelos
  • Pandora: Marli Bortoletto
  • Máscara da Morte: Marcelo Akira
  • Saga de Gêmeos: Eduardo Sonsin
  • Saori/Atena: Samira Fernandes
  • Dohko de Libra, idoso: Victor Cassoni
  • Dohko de Libra, jovem: Figueira Junior
  • Direção de dublagem: Douglas Guedes

Segundo as lembranças de integrantes daquele elenco, foram gravados 10 episódios da Saga de Hades entre 2003 e 2004. Desse material, oito episódios chegaram a ser editados e apresentados em eventos.

O projeto, entretanto, ganharia uma dimensão que seus criadores não esperavam.

Da exibição em eventos para as lojas da Liberdade

Após as apresentações em eventos, cópias da fandublagem começaram a aparecer à venda em lojas especializadas no bairro da Liberdade, em São Paulo, inicialmente em fitas VHS e posteriormente em DVDs.

A situação era particularmente delicada porque a autorização concedida originalmente estava relacionada à exibição em eventos, e não à comercialização das gravações.

Com a circulação das cópias, surgiu inclusive a ameaça de medidas judiciais. Victor Cassoni e Sérgio Moura chegaram a percorrer lojas para pedir que os estabelecimentos interrompessem a venda do material.

O que havia começado como um projeto de fãs, autorizado para apresentações em eventos, acabou ganhando uma vida própria no mercado informal de produtos de anime. Posteriormente, as cópias também passaram a ser comercializadas por vendedores ambulantes na região da Sé.

O episódio se tornou um retrato de uma época em que o mercado de anime no Brasil ainda era fortemente movimentado por eventos, lojas especializadas, VHS, DVDs e comunidades de fãs, antes da popularização das plataformas digitais e do streaming.

Outros projetos da GMStudios

A GMStudios também trabalhou em outros projetos de fandublagem.

Um deles foi o filme “Escaflowne”, exibido em eventos. Na produção, Samira Fernandes interpretou Hitomi, Douglas Guedes fez Van e Adna Cruz deu voz a Dilandau Albatou.

Outro projeto foi “Kamen Rider Decade”, cuja dublagem chegou a avançar por praticamente toda a série. Victor Cassoni e Sérgio Moura dividiram os principais papéis, interpretando, respectivamente, Tsukasa Kadoya e Daiki Kaito. Já Charles Emmanuel participou como Wataru Kurenai, personagem de Kamen Rider Kiva.

Esses trabalhos mostram como a GMStudios não se limitou a uma única produção e ajudou a reunir uma geração de fãs que buscava experimentar, de maneira independente, o universo profissional da dublagem.

 

Um registro de uma geração de fãs

Mais de duas décadas depois, a história da GMStudios também se confunde com a trajetória de uma geração que cresceu assistindo a animes e encontrou nos eventos de cultura pop um espaço para experimentar novas possibilidades profissionais.

A Saga de Hades permanece como o projeto mais lembrado dessa história. Foram dez episódios gravados, oito deles finalizados e exibidos em eventos, e uma trajetória que passou de uma iniciativa autorizada para apresentações a uma inesperada circulação no mercado informal de VHS e DVDs.

Por trás das vozes estavam jovens atores, estudantes de teatro, dubladores profissionais e fãs de anime que compartilhavam o desejo de trabalhar com personagens que admiravam.

A história também é marcada por perdas e por diferentes caminhos profissionais. Victor Cassoni faleceu durante a pandemia de Covid-19. Odair Stefoni, conhecido como Link Geminis, posteriormente se mudou para os Estados Unidos e chegou a trabalhar como ator nos parques da Disney.

Resgatar a trajetória da GMStudios, portanto, é também recuperar uma pequena parte da história da dublagem independente e da cultura dos fãs de anime no Brasil no início dos anos 2000 — uma época em que fazer uma fandublagem significava reunir amigos, equipamentos domésticos, atores, professores e muita paixão pelos personagens.

E, no caso da GMStudios, essa paixão chegou a dar voz a uma das sagas mais aguardadas pelos fãs de Cavaleiros do Zodíaco.