
Quem viveu os anos 1990 sabe: entrar em uma banca de jornal e encontrar uma nova edição de “Turma do Arrepio” ou “Chapolin” era quase um acontecimento. O dinheiro podia ser curto, mas sempre existia aquela vontade de levar mais um gibi para casa. E é justamente por isso que, décadas depois, o anúncio de encadernados dessas obras desperta tanta expectativa — e também alguma frustração.
Quando a Comix Zone anunciou uma edição reunindo histórias da “Turma do Arrepio”, criação de César Sandoval publicada originalmente pela Editora Globo, muitos leitores imaginaram que finalmente teriam uma espécie de “arquivo definitivo” daquela publicação.
A expectativa era semelhante à de grandes coleções históricas dos quadrinhos: não apenas uma seleção de histórias, mas a possibilidade de recuperar a obra desde o número 1, em ordem cronológica, com as capas originais, informações editoriais e aquelas pequenas curiosidades que fazem um gibi antigo ser muito mais do que simplesmente uma sequência de páginas.
Mas não foi isso que aconteceu.
O encadernado trouxe uma seleção de histórias consideradas as melhores. Para quem queria apenas matar a saudade, ótimo. Para quem esperava reconstruir a coleção, porém, ficou aquela sensação de “faltou alguma coisa”.
E não era uma expectativa absurda. Se o primeiro volume fizesse sucesso, a coleção poderia continuar até recuperar toda a produção. Seria uma oportunidade de transformar o encadernado em um verdadeiro documento sobre os quadrinhos publicados pela Globo nos anos 1990.

E lá vem o Chapolin…
Agora a história se repete.
A Comix Zone prepara uma publicação dedicada ao Chapolin, quadrinho que também passou pelas bancas brasileiras pela Editora Globo nos anos 1990, com roteiros e desenhos de Eduardo Vetillo.
E, mais uma vez, o projeto aposta em uma seleção de histórias, em vez de apresentar uma coleção integral desde o primeiro número.
Para quem simplesmente quer rever algumas aventuras, a proposta pode funcionar. Mas o colecionador que esperava colocar na estante toda a história editorial do personagem no Brasil novamente fica esperando.
E aqui existe uma diferença importante entre uma coletânea de melhores histórias e uma edição histórica.
Uma coletânea seleciona aquilo que a editora considera mais interessante. Já uma edição histórica preserva o conjunto: número 1, número 2, número 3… as histórias na ordem em que foram publicadas, as capas, os anúncios, os almanaques, os gibizinhos e outros materiais que ajudam a contar como aquela publicação chegou às bancas.
Para quem viveu aquela época, isso tem outro peso.
Porque não estamos falando apenas de quadrinhos. Estamos falando de memória.
Pelo menos o nome foi corrigido
A nova publicação também corrige uma questão que pode parecer pequena, mas chama a atenção dos leitores: a grafia do nome do herói.
A versão publicada originalmente no Brasil utilizava “Chapolim” com M no final. Agora, a Comix Zone adota a grafia “Chapolin”, com N, correspondente ao nome do personagem.
Quem viveu nos anos 90 vai entender
Existe uma diferença entre simplesmente republicar quadrinhos antigos e preservar uma parte da cultura pop brasileira.
“Turma do Arrepio” e “Chapolin” fizeram parte de uma época em que as bancas eram pontos de descoberta. O leitor ia comprar uma revista e acabava conhecendo outra. Colecionava, trocava com amigos, guardava em caixas e, muitas vezes, décadas depois ainda lembrava exatamente da capa que tinha visto na banca.
Por isso, uma edição integral teria um significado especial para esse público.
Mesmo com a ressalva em relação ao formato, a nova publicação de Chapolin merece atenção justamente por ajudar a manter esse material acessível e registrar uma produção que poderia facilmente permanecer esquecida.
A pré-venda começa em breve e certamente encontrará leitores dispostos a reencontrar um pouco daquela infância e adolescência dos anos 1990.
Mas fica o pedido para a Comix Zone: não parem nas “melhores histórias”.
Quem viveu aquela época talvez queira muito mais do que isso.
Queremos pegar o primeiro número e começar de novo.
Do número 1. Em ordem. Com as capas. Com tudo.
Porque, para quem coleciona memória, não existe história “menos importante”.
David Denis criou o seu primeiro site em janeiro de 1999; o Cultureba entrou no ar em julho de 2005.
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(Teatro Macunaíma)
Jornalista – MTB: 55.172/SP
(Universidade Anhembi Morumbi)