
Com o desenhista Daniel HDR (de “Mestres do Universo”) na Alameda dos Artistas da Bienal (foto: Tom Marques)
A 28ª Bienal do Livro de São Paulo bateu recorde de público (760 mil pessoas). Ótimo. Só que existe uma pequena questão: de que adianta bater recorde se, em determinados momentos, parece que ninguém sabe muito bem o que fazer com tanta gente?
Fui à Bienal e uma coisa ficou evidente logo de cara: o evento conseguiu reunir exatamente aquele público que gosta de livros, quadrinhos, mangás, cultura pop e entretenimento. O preço do ingresso ajudou — e muito. Para quem queria passar um dia no Anhembi mergulhado nesse universo, era um convite difícil de recusar.
Tão difícil que o segundo final de semana já estava esgotado antecipadamente.
E, quando finalmente se conseguia o ingresso, começava uma outra aventura: entrar nos estandes.
A sensação, em alguns momentos, era de estar participando de uma competição de resistência. Filas enormes para entrar em determinadas editoras, filas para chegar nos livros e mais filas para pagar. Era impossível comprar alguma coisa.
E não estou falando daquela fila inevitável de um evento lotado. Estou falando daquelas filas que fazem você olhar para o relógio e pensar se realmente vale a pena entrar em determinado estande.
E existe uma ironia ainda maior.
Depois de esperar para entrar, esperar para escolher o produto e esperar para pagar, você descobre que talvez pudesse ter comprado aquele mesmo livro pela Amazon, muitas vezes por um preço menor, recebido em casa e ainda com frete grátis.
Aí fica difícil defender a experiência de compra.
Também chamou atenção a quantidade de estandes repetidos de um determinado patrocinador vendendo livros antigos a preços promocionais. Em alguns momentos, a impressão era de que havia muito estoque encalhado esperando pela Bienal para finalmente encontrar um dono.
Mas nem tudo merece reclamação.
A comparação com eventos como Anime Friends e CCXP é inevitável. A Bienal ganhou uma cara muito mais pop do que aquela velha imagem de uma feira exclusivamente dedicada aos livros. E isso é interessante.
O Anhembi estava tomado por grandes estandes, atrações e atividades. Tinha música, poesia, recitais, encontros com artistas e sessões de autógrafos.
Em um mesmo dia, era possível encontrar Giovanna Antonelli autografando seus lançamentos, o autor de “Café com Deus Pai” recebendo leitores e até o político Eduardo Suplicy promovendo seu trabalho.
E para quem gosta de quadrinhos e mangás, também havia motivos para circular bastante.
Panini e NewPOP estavam lá com seus mangás. Daniel HDR, responsável pela nova HQ do He-Man, era um dos nomes que podiam ser encontrados por quem acompanha o mercado de quadrinhos. E o espaço dedicado aos artistas independentes trouxe aquela sensação gostosa de garimpo que lembra os antigos Beco dos Artistas e Fanzine Expo — e, para quem acompanha eventos mais recentes, o Artist Valley da CCXP.
É esse tipo de coisa que faz a Bienal ficar interessante. Ela deixou de ser apenas uma feira para comprar livros e passou a funcionar como um grande encontro de públicos diferentes.
A praça de alimentação estava caprichada. Bonita, organizada e com opções. Só tinha um pequeno detalhe: estava vazia.
E talvez o motivo seja bastante simples. O visitante olha o preço de um lanche, olha novamente para o preço, olha para a própria carteira e decide que talvez consiga esperar até chegar em casa.
Porque uma coisa é pagar ingresso para um grande evento. Outra é pagar preço de evento em absolutamente tudo lá dentro.
No final, a Bienal merece ser reconhecida pelo tamanho que alcançou. Bater recorde de público não acontece por acaso. O evento conseguiu conversar com um público muito mais amplo e misturou literatura, quadrinhos, mangás, cultura pop e entretenimento de uma maneira que funciona.
Mas o sucesso também cria uma responsabilidade. Se a Bienal quer continuar crescendo, precisa descobrir como transformar esse público enorme em uma experiência igualmente boa.
Porque leitor gosta de livro. Fã de quadrinhos gosta de quadrinhos. Fã de cultura pop gosta de evento.
Mas ninguém — absolutamente ninguém — acorda de manhã pensando: “Hoje eu quero passar oito horas em filas.”
A Bienal cresceu. E agora precisa aprender a crescer junto com o público.
Porque recorde de público é maravilhoso. Recorde de paciência, nem tanto.
LEIA TAMBÉM: Bienal do Livro de São Paulo fica marcada por censura a livro da NewPOP

Com a roteirista e desenhista Suu Hideto (Barbara Linhares) no estande da Crás Studio (foto: Tom Marques)
David Denis criou o seu primeiro site em janeiro de 1999; o Cultureba entrou no ar em julho de 2005.
Ator – DRT: 29.837/SP
(Teatro Macunaíma)
Jornalista – MTB: 55.172/SP
(Universidade Anhembi Morumbi)