
Quando a gente assiste a uma animação em stop-motion, é fácil ficar impressionado com os personagens, os cenários e aquela sensação quase artesanal de que cada movimento foi construído à mão. O que nem sempre aparece na tela é a quantidade de profissionais envolvidos para fazer tudo isso acontecer — e, entre eles, está um brasileiro.
Graças a um release da Imagem Filmes conhecemos o animador mineiro Thiago Calçado, natural de Uberaba e formado em Cinema pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), fez parte da equipe de “O Bosque Selvagem”, produção da LAIKA dirigida por Travis Knight. E não é a primeira vez que ele trabalha com o cineasta: os dois já haviam se encontrado em “Kubo e as Cordas Mágicas” (2016).
E se você acha que stop-motion é simplesmente colocar um boneco diante de uma câmera e tirar várias fotos, a trajetória de Thiago ajuda a mostrar o tamanho do trabalho por trás de cada segundo de animação.
Do primeiro teste aos enormes cenários da LAIKA
Thiago acompanhou “O Bosque Selvagem” praticamente desde o nascimento do projeto. Ele estava presente nos primeiros testes, quando ainda eram desenvolvidos os esqueletos e os bonecos que posteriormente ganhariam vida no filme. “Comecei nos testes de ‘O Bosque Selvagem’. Estava lá quando começaram a testar os esqueletos e os bonecos. Ver um filme nascendo do zero é muito emocionante.”
Na LAIKA, esse processo começa em uma espécie de laboratório chamado test unit, um pequeno set criado para testar personagens, movimentos e materiais. Só que aquilo que começa pequeno rapidamente ganha proporções gigantescas. “Você começa no que a gente chama de test unit, um mini set onde testamos os bonecos, e de repente, quando você vê, são sets imensos de uma cidade completa, com vários personagens.”
É justamente esse cuidado quase obsessivo com os detalhes que, segundo o animador, diferencia o trabalho do estúdio. “Você pede um parafuso e o cara te dá cinco opções: qual é o melhor, para que você quer. Se eu peço uma cola, ele pergunta: ‘Mas você vai colar o quê? Madeira com papel, papel com papel, metal com madeira?’.”
Para quem olha o resultado pronto, pode parecer exagero. Para quem trabalha com stop-motion, é o tipo de detalhe que faz toda a diferença.
Um brasileiro em alguns dos grandes stop-motions dos últimos anos
A história de Thiago na animação começou antes da LAIKA. No Brasil, ele integrou a equipe de “Minhocas” (2013), de Paolo Conti e Arthur Nunes, considerado o primeiro longa-metragem brasileiro produzido em stop-motion.
Em 2016, além de trabalhar em “Kubo e as Cordas Mágicas”, participou do longa norueguês “Dyrene i Hakkebakkeskogen”, baseado na obra clássica do escritor Thorbjørn Egner.
Dois anos depois, veio outro projeto de peso: “Ilha dos Cachorros” (2018), de Wes Anderson. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Animação e Melhor Trilha Sonora Original e recebeu o Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim.
Mas ainda faltava um daqueles momentos que qualquer profissional de cinema gostaria de contar para o resto da vida.
E então veio o Oscar
Thiago foi animador sênior de “Pinóquio” (2022), dirigido por Guillermo del Toro. No filme, ele ficou responsável pela animação de uma das figuras mais marcantes da produção: a Morte, personagem dublada por Tilda Swinton na versão original.
O longa acabou levando o Oscar de Melhor Animação e acumulou dezenas de outros prêmios pelo mundo.
Ou seja: quando alguém falar que o Brasil também tem espaço no sofisticado universo do stop-motion internacional, Thiago Calçado é um daqueles nomes que ajudam a provar isso na prática.
E agora ele está novamente nos créditos de uma produção da LAIKA.
“O Bosque Selvagem” foi realizado ao longo de 231 semanas de trabalho, envolvendo artistas, artesãos e técnicos responsáveis por 2.804 planos construídos manualmente.
O resultado já colocou o filme entre os destaques da temporada de premiações: além da indicação ao Oscar de Melhor Animação, a produção se tornou apenas a segunda animação da história indicada ao Oscar de Melhores Efeitos Visuais, feito que não acontecia desde “O Estranho Mundo de Jack”, em 1994.
O filme também venceu o BAFTA de Melhor Animação, além de três prêmios Annie e o prêmio de Melhor Animação do National Board of Review.
No meio de tudo isso, existe um brasileiro ajudando a colocar bonecos, cenários e histórias em movimento — literalmente, quadro a quadro.
David Denis criou o seu primeiro site em janeiro de 1999; o Cultureba entrou no ar em julho de 2005.
Ator – DRT: 29.837/SP
(Teatro Macunaíma)
Jornalista – MTB: 55.172/SP
(Universidade Anhembi Morumbi)