
O ator João Pedro Chaseliov, que interpreta o humorista Paulo Gustavo em “Meu Filho é um Musical”, enfrentou críticas por sua escalação e aproveitou o último fim de semana da peça em São Paulo para fazer um desabafo emocionante.
Interpretar Paulo Gustavo não é uma tarefa simples. Além de dar vida a um dos humoristas mais queridos do Brasil, o ator escalado para o papel precisa lidar com a memória de um artista que transformou a própria vivência em humor, conquistou o público e se tornou um importante ícone LGBT. Para João Pedro Chaseliov, protagonista de “Meu Filho é um Musical”, a experiência ganhou contornos ainda mais pessoais para quem acompanhou a rotina de João Pedro com uma namorada na internet e consideravam que o ator era heterossexual.
Desde que foi anunciado para interpretar Paulo Gustavo, João Pedro passou a receber críticas de pessoas que questionavam sua escalação. O argumento era de que o personagem deveria ser interpretado por um ator assumidamente gay, já que Paulo Gustavo falava abertamente sobre sua sexualidade e nunca escondeu aspectos de sua vida pessoal. O humorista, que morreu aos 42 anos, vítima da Covid-19, também construiu sua história ao lado do marido, Thales Bretas, com quem teve dois filhos.
A discussão voltou aos holofotes recentemente, após a circulação de um trecho de podcast no qual João Pedro afirma não ser hétero. O assunto repercutiu nas redes sociais e chegou a veículos especializados no público LGBT, como o Guia Gay São Paulo.
Mas foi no próprio palco, durante o último fim de semana da temporada paulistana do espetáculo, que o ator decidiu falar abertamente sobre o assunto.
Uma descoberta que aconteceu ao longo do caminho
Na sessão de sexta-feira, 9 de outubro, durante o encerramento da apresentação, João Pedro compartilhou com o público um pouco de sua trajetória pessoal. Segundo o ator, a questão nunca foi um problema dentro de sua casa. O que aconteceu é que ele começou muito cedo no meio artístico e ainda estava descobrindo quem era.
Em 2019, quando participou do “The Voice Kids”, da TV Globo, João Pedro ainda era criança. De lá para cá, vieram novos trabalhos, experiências e oportunidades de amadurecimento, inclusive nos palcos, em produções como “Shrek” e “A Noviça Rebelde”.
Com o passar dos anos, o ator teve a oportunidade de conhecer melhor a si mesmo, compreender seus sentimentos e amadurecer suas próprias ideias. Um processo natural, mas que ganhou uma dimensão pública inesperada diante das cobranças e dos questionamentos sobre sua vida pessoal.
A impressão que passava era de que pessoas queriam tirar o ator a força do armário só por ele ter sido escalado para a peça sobre o Paulo Gustavo, como se fosse obrigatório que o interprete do ator fosse um homem gay assumido, esquecendo que a arte não pode ser algo tão limitador.
A cena que emocionou o ator e sua mãe
Um dos momentos mais tocantes do desabafo aconteceu quando João Pedro falou sobre os ensaios de uma cena em que Paulo Gustavo conta à mãe, Dona Déia, que é homossexual.
Durante a preparação, o ator se emocionou profundamente. Ao olhar para a própria mãe, que acompanhava o ensaio, percebeu que ela também estava comovida.
A lembrança ganhou ainda mais significado pois a mãe de João Pedro, que mora no Rio de Janeiro, viajou até São Paulo para assistir ao espetáculo e estava presente naquela sessão. O ator contou ao público que ela estava na plateia, mas preferiu não revelar seu lugar, explicando que a mãe não gosta de aparecer.
O relato transformou aquele momento em algo maior do que uma simples conversa sobre a vida pessoal de um artista. Diante do público, João Pedro compartilhou uma experiência íntima que se conectava diretamente com a história que estava contando no palco.
Afinal, um ator precisa provar quem é para interpretar um personagem?
A repercussão em torno da escalação de João Pedro levanta uma discussão importante sobre representatividade no entretenimento. É legítimo debater a presença de artistas LGBT em personagens que carregam essa vivência, principalmente em um mercado no qual oportunidades e visibilidade nem sempre foram distribuídas de maneira igualitária.
Mas também é preciso cuidado para que a busca por representatividade não se transforme em uma cobrança pública pela exposição da intimidade de quem está trabalhando.
A história de Paulo Gustavo merece respeito, assim como a trajetória de quem aceita o desafio de interpretá-lo. A sexualidade de um ator, por si só, não determina sua capacidade artística. Ao mesmo tempo, a representatividade importa, e discutir quem tem espaço para contar determinadas histórias continua sendo necessário.
No caso de João Pedro, seu desabafo mostrou que existe uma pessoa em processo de amadurecimento por trás do personagem. Alguém que começou a trabalhar ainda criança e que, como qualquer outra pessoa, tem o direito de compreender e compartilhar sua identidade no próprio tempo.
David Denis criou o seu primeiro site em janeiro de 1999; o Cultureba entrou no ar em julho de 2005.
Ator – DRT: 29.837/SP
(Teatro Macunaíma)
Jornalista – MTB: 55.172/SP
(Universidade Anhembi Morumbi)